por H.G. Stoker
Em nossa opinião, a ideia-base filosófica do cosmos não é a revelação, mas sim a ideia da criação. O cosmos como cosmos é a criação de Deus. Em contraste a isso, a Filosofia da Ideia Cosmonômica postula a idéia da lei como a ideia-base filosófica (…).
A “ideia da lei” cumpre um papel fundamental em todas as nuances da filosofia calvinista. Mas isso não significa que todos os filósofos calvinistas compartilhem nesse respeito o ponto de vista da Filosofia da Idéia Cosmonômica [de Dooyeweerd]. “De certa forma é preocupante que pessoas de uma escola filosófica discordem em uma questão tão vital quanto esta”, escreveu Van Riessen em uma ocasião. Mas em seguida ele aponta para os filósofos calvinistas e seu apego religioso à palavra de Deus, às Escrituras e ao Cristo das Escrituras como um ponto de convergência entre eles. Essa dependência da palavra de Deus é também o “scandalon” da filosofia cristã. Isso não exclui a diferença de opiniões entre filósofos calvinistas, mas “a exortação que as pessoas devam caminhar juntas e buscar debate entre si é tida em conta, assim como a promessa de que tais debates serão significantes, e de que os debatedores alcançarão um consenso nesse caminhar.”
Na minha opinião é importante em particular que, em casos de diferença de opinião entre filósofos calvinistas, um deva tentar determinar em quais pontos eles parecem concordar, para depois olhar para as diferenças, com as coisas que concordam no fundo da mente. A falha em fazer isso leva a um exagero das divergências de opinião, a ponto de não podermos mais concordar com coisa alguma!
Quanto à ideia da lei, todos calvinistas aceitam inter alia o que a palavra de Deus nos revela sobre a lei (ou antes, a ordem cósmica / ordem ôntica) de Deus; que Deus, como soberano Legislador e Rei tenha dado a lei para todo o cosmos, sem exceção; que a lei não deve ser nem absolutizada nem subjetivada; que a lei (ou ordem cósmica) constitui o limite peculiar entre Deus e o cosmos (material, planta, animal e ser humano), [limite este] que não pode ser transcendido pelo cosmos (inclusive o ser humano); que há uma coerente diversidade de leis; que a lei (ou ordem cósmica) é valida para o cosmos, e é sempre válida, mesmo quando seres humanos transgridem a (normativa) ordem cósmica; que a liberdade e a responsabilidade humana pressupõem a ordem cósmica; que a ciência (inclusive filosofia) tem a tarefa de descobrir e examinar a ordem cósmica na medida do possível (em outras palavras, dentro dos limites criacionais dados); que o princípio de “soberania de esfera” deveria ser respeitado não somente nas práticas existenciais do cotidiano, mas também no contexto de ciência e acadêmico; e que esse princípio encontra sua base na ordem ôntica que foi comandada por Deus para o cosmos em sua diversidade; e por aí em diante. Nossas mútuas diferenças de opinião devem ser compreendidas dentro do contexto que compartilhamos (…).
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O autor: H.G. Stoker (1899-1993), filósofo sulafricano, ensinou na Universidade em Potchefstroom (África do Sul), tendo se especializado na filosofia do pensador católico-romano Max Scheler. Foi preso durante a Segunda Guerra por apoiar localmente a causa afrikaans em detrimento dos ingleses. Sua obra foi celebrada por vários pensadores reformacionais, dentre eles, Cornelius Van Til e Herman Dooyeweerd.
Tradução: Guilherme Braun (Março 2012)
Fonte: Extraído de Oorsprong en Rigting, II.6 (Tafelberg: Cape Town, 1970), seção III.B.2.